terça-feira, 3 de março de 2015

A parábola das varas


A parábola das varas

                            B. M. Curvo Semedo  (Seleta em prosa e verso)

Um velho sábio e prudente,

Vendo-se vizinho da morte,

Chama três filhos que tem,

E fala-lhes desta sorte:

 

“Eia, vêde, amados filhos

Se quebrais, pois por força ou jeito

Este emblema ;  e tira um molho

De varas de vime feito.

 

Ao filho mais velho o dá,

Que se propões parti-lo

Mas, por força que emprega

Nunca pode consegui-lo

 

Pega-lhe o filho segundo,

Destro e valente rapaz,

Que parti-lo não consegue,

Por mais esforços que faz.

 

Entregam-no ao mais pequeno

Que blasona de mui forte.

Torce-o dobra, cora e sua,

E deixa-o da mesma sorte.

 

Fracos moços!  Diz o pai,

Vossa fraqueza celebro!

Vêde como desta idade

Essas varas todas quebro.

 

Depois desatando o molho,

Pronto as varas dividindo,

Com toda a facilidade

Uma a uma as vai quebrando

 

E diz “Vede neste exemplo,

Filhos de meu coração

Os desastres da discórdia

E as vantagens da união.

 

Partir não podeis, ò moços

As varas estando unidas

Mas, depois de separadas

São fracas mão partidas

 

Se unidas vos conservardes,

Assim, ó filhos sereis

E as baldãos ímpios da sorte

Sem custo resistireis:

 

Mas, se algum dia a desgraça

Vos chegar a desunir,

 

 

 Qualquer de vós aos seus golpes

Não poderá resistir.”

 

Assim o velho proclama

Esta brilhante doutrina,

E no fim de pouco tempo

Sua carreira termina.

 

Os filhos choram-lhe a morte

Com lamentos deploráveis

Porem lembram-se mui pouco

De seus conselhos saudáveis.

 

Porque danoso interesse

Em partilha os envolve,

Um credor, outro credor

Os bens paternos dissolve.

 

Depois, vomitando injúrias,

Uns contra os outros litigam;

E os ministros com prisões

E com multas os castigam

 

Pobres por fim, noite e dias

Com prantos e queixas amaras,

Recordam, mas sem remédios,

O sábio exemplo das varas.

 

A União faz a força

                                      Tradução da seleta prosa e verso Alfredo Clemente Pinto 50 ed

Um velho, achando-se as portas da morte , em torno a si congregou seus três filhos, e, apresentado um feixe de varas, disse-lhes:

“Vede se podeis quebrar estas varas assim unidas como se acham. Depois explicar-vos-ei o que  com isso pretendo ensinar-vos”.

O mais velho dos irmãos tomou o molho de varas, e depois de empregar em vão toda a sua força largou-o, assegurando não haver quem o pudesse quebrar.

A todos resistiu o feixe de varas,  sem que uma só estalasse. “Gente fraca” disse o velho, “a-pesar-da minha velhice e de estar já para morrer, vou mostrar-vos quando mais forte do que vos ainda sou”.

Ouvindo estas palavras, creram os moços que seu pai gracejava e se puseram a rir.

Então desatou o velho aquele feixe de varas e sem custo as foi quebrando uma por um.

Nisto que acabais de ver, considerai, meus filhos, os efeitos da concórdia e da união.

Sede, pois, sempre e muitos unidos, caros filhos, amai-vos estremecidamente uns aos outros, que fortes e felizes havereis de ser.”

E, dequele dia por diante, quase em outra coisa não  falou o velho até morrer. Nos bons resultados da união e do amor iam sempre dar as suas conversas.

E, quando sentiu chegada a sua hora final, chamou d novo seus filhos, e lhes falou deste modo:

Queridos filhos, é tempo de deixa-vos! Eu vou reunir-me aos meus antepassados. Recebei a minha benção. Adeus!

“Mas antes que eu morra, prometeram, senão que juraram cumprir os desejos de seu pai.

Então com o semblante radioso de consolação, aquele sábio velho os abençoou  novamente e expirou.

Herança muito considerável, mas cheia de complicação, coube àqueles irmãos, pelos que tiveram de sustentar várias demandas das quais sempre saíram-se vantajosamente, enquanto amigos e unidos.

Mas quão pouco durou aquela união!

O sangue e os conselhos do velho bom pai os inham unidos:  os interesses e a ambição os desuniram.

Chegada a ocasião da partilha e querendo cada um ser mais bem aquinhoado, desuniram-se, e, mais do que isto, inimizaram-se.

E começaram  eles próprios a demandar um contra os outros.

Também novos credores apareceram, que daquela desunião se aproveitaram.

Grande foi então o desconcerto! Um queria acomodar-se e os outros não; e por fim de contas, em pobreza caíram todos, lembrando-se afinal, porém já tarde da sábia lição que com aquele feixe de varas lhes havia dado seu pai.

 

 

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