segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Pensar


“Pensar” a morte

A morte “da o que pensar”, O pensamento pode ser ocupar em muitas caminhos, pode até pensar só em si mesmo, como a lógica. Mas a morte surge como uma parede fatal que interrompe todo o caminho. Nela, o pensamento, quando mais bater, mais sairá ferido e derrotado. Por  isso, os antigos filósofos epicuristas, que davam receitas para viver com o máximo de prazer e equilíbrio esta curta vida que nos cabe, queiram despreocupar seus ouvintes com a leviana fórmula: “Quando você está, a morte: quando a morte está, você não está”. É claro que isso não resolve a morte de quem amamos e a dor que sofremos por uma perda irreparável.

Uma vaca é morta mas não sabe, e por isso não se preocupa, não angustia, é símbolo da tranquilidade, Nas nós sabemos que vamos morrer e por isso nos pre-ocupamos. Quase tudo ou talvez tudo o que fazemos tem sua razão última e secreta nesse fato: somos mortais. Nossas lutas com a saúde e a medicina, nosso cuidado com o vestir e morar, nossa profissionalização, economia, organizações, talvez toda nossa cultura, provém dessa luta com a morte inevitável que procuramos adiar.

A morte revela nosso “fim”, ou seja, nossa limitação, finitude humana. Humilha, por isso, nosso pensamento, sobretudo o pensamento de que somos seres livres, de que a liberdade é o valor mais alto de nossas vidas, que nos distingue como humanos e pela qual vale a pena lutar. Muitos até morrem pela liberdade. No entanto, a norte torna nosso pensamento sobrecarregado, pesado  “preso”, e o pensamento se mistura com a angustia e agonia. Um filósofo moderno, Martin Heidegger, ficou célebre por sua curta definição do ser humano: “ser-para-a-morte”. No entanto, segundo ele, a morte e a finitude que ela revela cruelmente, nos permitem antecipar uma decisão vital: ela mostra o “nada” sobre o qual dança a nossa liberdade finita, sem raízes. Podemos, assim, assumir esta vida limitada com única forma de ser autenticidade livres.

Os Filosofos anteriores, porém, sobretudo o grande Platão, tomaram uma direção contrária: pela alma nós somos imortais, embora pelo corpo sejamos mortais. É o “dualismo” de corpo/alma como forma de solução. A alma participaria da esfera divina e imortal por sua forma espiritual, incorpórea. Na verdade, isso é mais uma “opinião”, pois que de nós sabe o que é puramente espiritual, uma vez que tudo em nós, até os sentimentos mais espirituais, têm uma base corporal? Nós não sabemos o que é ser fora do corpo, apesar de todos os esforços exotéricos. É duro ser autêntico e reconhecer, como fez Heidegger, de que não podemos saber se somos imortais nem pela alma, e que o dualismo grego é antes fruto de um desejo. Este desejo de imortalidade pode estar nas religiões, na filosofia, na ciência, na tecnologia, em tudo o que fazemos. Nós queremos ser felizes, e garantir esta felicidade “para sempre”, desejamos imortalidade. Se não é imortal, a felicidade não vale a pena, o balanço de custo-benefício faz o peso da balança afundar nos custos. Mas desejar ser imortal não é provar de que somos de fato imortais. É a morte dos que amamos revela o contrário, abre o abismo da morte em que mergulha o amor, um amor que quer se “para sempre” e, por isso mesmo, é o que há de mais doloroso na catástrofe da morte.

Gabriel Garcia Marques, prêmio Nobel de literatura, afirmou que há apenas dois assuntos pelos quais vala a literatura: amor e morte. Tanto o amor como a morte se encontram como os maiores inimigos na grande trama e batalha que decide a via no seu extremo. A ficarmos  com o Cântico dos Cânticos, da Bíblia, o amor é o único capaz de enfrentar a morte de frente., porque “amor é forte como a morte”. De certa forma, “amar é morrer” porque o amor no joga para fora de nós mesmos em direção a quem amamos. E exatamente por isso, quando a morte nos toca a nos aniquila, não nos encontra mais em nós mesmos, não porque já não somos, como pensavam os epicuristas, mas porque estamos na pessoa amada. A morte não consegue aniquilar o amor, nem sequer consegue tocá-lo, pois é próprio do amor fazer morrer para si mesmo antes mesmo da morte, habitando e se abrigando em quem se ama.

Mas sobra uma derradeira pergunta: e quando morre a pessoa amada? Então a saudade nos leva junto, pois a saudade é um laço doloroso e inquebrantável, que atravessa a morte e que o tempo o tempo não destrói. A saudade é memória mais longa do que a morte, fidelidade que nos vai conduzindo pelas frestas da parede da morte numa luta de gigantes. A saudade é um amor à distância, que abraça o infinito, impulsionando à união, apesar da morte.

No entanto, a saudade, como avisa a psicanalise, é perigosa, pois pode nos paralisar e nos fazer viver só do passado. Esta é meia verdade. A outra metade é mais importante: Ela pode transformar em esperança, em força e confiança diante da morte, porque a morte de quem se ama é uma partida que abre espaço para se amar mais, para se cuidar de outros  mortais  que também precisam de amor para não cair na batalha contra a morte. O amor verdadeiro, que faz morrer para si mesmo, ensina a amar sem egoísmo e sem retorno, a alcançar o regaço, as mãos, o socorro, para os que estão em perigo de morrer. Um amor de verdade obriga a preocupar-se mais com a morte dos outros do que com a própria. É quando eles morrem, o amor cada vez mais ausente e definitivo abre ainda mais espaço e mais caminho pra continuar a obra do amor que vence a morte dos que aqui morrem. Uma “filosofia da morte” só pode ser bem pensada se for de frente com uma “filosofia do amor” – fortes como a morte, enlaçando amor e morte em dramática e terrível poesia. “ No entardecer da vida, o que vala é ter amado”.

Luis Carlos Susin

PoA/15.10.03

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